PSICOLOGIA PSICOLOGIA E EMAGRECIMENTO

O PESO DA OBESIDADE

obesidade
Marcia Bernardes
Escrito por Marcia Bernardes

No enfoque psicanalítico a obesidade é vista como reflexo de sintomas psicológicos que podem ser formados pelo inconsciente como forma de resistir às pressões das pulsões e angústias vividas pelo indivíduo durante seu desenvolvimento psíquico.

Você pensa na obesidade como uma epidemia do século ou como um grave problema de saúde pública?

Você já pensou que a pessoa obesa é também um sujeito que pode sofrer para além de sua obesidade?

Temos que tratar o sujeito que está ali preso a um corpo, seja ele magro, gordo ou obeso.

O que temos observado é que são os próprios conflitos desenvolvidos pelo ser humano desde sua concepção, e principalmente na sua infância, que podem desencadear a construção de um corpo obeso.

Para além de um diagnóstico médico, enquadrando a obesidade no campo da doença, a psicanálise abre a possibilidade de ver esse sujeito em sua prisão psíquica. O indivíduo pode carregar dentro de si, sem se dar conta disso, incontáveis significados. A psicanálise propõe uma investigação desse espaço interno, que é único, em busca de um “ser”. Um “ser” que possa dar sentidos ao sujeito. Retirando o sujeito da simples noção de um corpo biológico.

Na concepção psicanalítica a obesidade se articula a formação de sintomas. Vamos observar o que está encadeado a essa alimentação exagerada. Que motivos desassociados da alimentação o sujeito utiliza como forma de sobrevivência. Geralmente, esse apetite exagerado representa os papéis distorcidos que a comida alcança na vida das pessoas que sofrem com a obesidade.

Para alguns indivíduos, o alimento se transforma ao longo da vida em objeto das relações dessas pessoas. A consequência dessa relação é que o alimento perde seu papel essencial de nutrição, e passa a servir como instrumento que alivia os momentos de ansiedade e medo.

Estudos demonstram que pessoas que sofrem com algum tipo de obesidade, 2% derivam de causas endocrinológicas, outros 8% são diabéticos e não produzem insulina no organismo suficiente para metabolizar os alimentos. Existem também aproximadamente 10% de pessoas com tendência genética a obesidade, portanto herdam a gordura de seus antepassados e provavelmente mais uns 10% que são obesos na vida adulta por terem sido crianças gordas. E ainda pode-se contar 10% que desenvolvem a obesidade por aspectos culturais sejam esses aspectos hábitos familiares, sociais ou étnicos (Mascarenhas, 1985).

Os dados acima descrevem as causas de 40% das pessoas com problemas de obesidade, restam 60% das pessoas obesas que certamente desenvolveram esse problema devido a causas emocionais.

Ainda segundo esses estudos, os médicos dizem que as pessoas engordam apenas por comerem em excesso ou porque descontam suas ansiedades, carências e depressões na comida, mas nem sempre consegue-se explicar porque que esses problemas levam as pessoas a comerem demais.

Essa falta de entendimento com relação ao porque a pessoa obesa come demais, dificulta seu tratamento. Geralmente os métodos estão fundamentados em critérios científicos e fisiológicos estabelecendo, na maioria das vezes, um tratamento baseado em dados objetivos, desprezando os fatores subjetivos que possam interferir nesses resultados.

O que vemos hoje é a abordagem da obesidade no alicerce saúde-doença, buscando no emagrecimento o restabelecimento de um estado de saúde associado ao corpo magro. Isso decorre do fato de se pensar que a doença principal é a obesidade. A consequência dessa perspectiva é o crescimento de atitudes e crenças naturalizadas tanto no meio médico como no social, de que o obeso não emagrece por preguiça, desleixo ou falta de “força de vontade”.

Hoje já sabemos que casos de obesidade causados por patologias endócrinas ou genéticas bem definidas, constituem um percentual muito pequeno. Na década de 30 a obesidade era incluída somente dentro dos distúrbios das glândulas endócrinas, e foi a partir das décadas de 40 e 50, que a aproximação com a questão psicológica começou a receber maior ênfase, e mais recentemente é que os fatores emocionais começaram a ter importância para os profissionais que lidam com o excesso de peso.

images (12)

Alguns estudos no campo psicológico apontam a obesidade como uma expressão física de um desajustamento emocional. Afirmam que pessoas obesas podem utilizar a alimentação compulsiva como meio para lidar com seus problemas internos. Um perfil psicológico comum presente em muitos casos de obesidade inclui características como: autoestima baixa, vergonha, culpa, carência afetiva, autopiedade, ausência de autocontrole, insegurança, não aceitação do problema, temor de não ser aceito ou amado, desamparo, intolerância, passividade e submissão, o que a pessoa pensa sobre si mesma e como internaliza a opinião alheia, entre outros.

Um dado importante que aparece nessas pesquisas é a dificuldade que a pessoa obesa tem em gerenciar a fome e distingui-la de sensações desagradáveis como desconforto, ansiedade. De um modo geral classifica qualquer mal-estar falsamente como fome, talvez por fazer a ligação da comida com o objeto que nutri e logo conforta as sensações desagradáveis, ao mesmo tempo em que remete inconscientemente ao amparo materno.

Diferentemente dos animais, para nós, seres humanos, o ato alimentar deixa de ter somente o aspecto nutricional de manutenção do corpo e passa a ter também sentidos e significados para além da simples nutrição.

O homem nasce livre, sem qualquer noção de regra de conduta, apenas quer seguir seus instintos, mas logo se depara com um mundo cercado de regas. Precisamos nos adequar ao mundo, a sociedade nos impõe, mas temos dificuldades. Diante dessas dificuldades desenvolvemos mecanismos de compensação para encontrar formas primarias de prazer. E o alimento é a fonte mais próxima de prazer primário, visto que foi o primeiro contato do homem com o mundo externo.

Desde o nascimento o alimento vem associado com sensações de prazer, conforto, relaxamento e alegria, por exemplo. Um bebê quando sente fome, sente uma sensação desagradável, é como se tivesse uma dor física. Ela chora e ao receber o alimento a sensação de dor dá lugar a sensação de prazer e conforto. Esse contato físico com a mãe também lhe proporciona aconchego e carinho.

Percebendo que sua principal fonte de amor é a mãe, sempre que se sente pressionado pelo meio externo, sai em busca do vínculo materno, vínculo este que faz mais sentido para o indivíduo através do alimento.

É fácil concluir que é no ato de alimentar-se que o indivíduo, inconscientemente, se sente seguro.

Estabelece-se assim, uma forma de comunicação da criança com a mãe ou outros que a cercam. O alimento passa a ser, então, uma forma de comunicar-se com o outro ou ainda de manifestar suas vontades e de contestar as regras vindas do meio.

O comportamento alimentar do homem deveria manter sua principal função, que é a de matar a fome. No entanto, se o ato de saciar a fome é natural, as práticas alimentares, não são naturais, mas situam-se na esfera dos sistemas simbólicos, e relações sentimentais que cada pessoa cria ao se alimentar. É em torno do alimento que cada indivíduo elabora suas próprias regras fundadas tanto no senso comum, em preceitos religiosos, em conhecimentos médicos, quanto no contexto cultural e familiar em que vivem. E esse comportamento constitui-se na maioria das vezes, em atividades sociais e constrói representações de si próprio através dos hábitos alimentares.

O comportamento alimentar liga-se diretamente ao sentido que conferimos a nós mesmos e à nossa identidade social. Alimento é algo universal e geral, ajuda a estabelecer uma identidade, definindo, por isso mesmo, um grupo, classe ou pessoa. O que se come, quando, com quem, por que e por quem é determinado culturalmente, transformando o alimento em comida (Braga, 2004). O ato de comer deixa de ser uma mera atividade biológica e ganha um cunho social e cultural.

O ser humano deixou de comer para sobreviver e passou apenas a comer. O alimento tem acompanhado as pessoas em todos os momentos, as famílias se reúnem em torno do alimento, almoços e jantares comemorativos, não pode faltar no cinema e é um acompanhante agradável para assistir televisão.

O alimento se tornou companheiro das alegrias, sofrimentos e vitorias. O ato da alimentação perdeu o significado de nutrir, de salvar, de manter a vida e ganhou significados os mais diversos possíveis, e os mais distorcidos possíveis, chegando a destruir as relações entre os seres humanos, deformar imagens corporais e confundir processos mentais.

E para você, qual significado tem o alimento?

Enfim, são muitos os exemplos em que o indivíduo se apoia na comida para se sentir seguro em suas relações sociais. Mas o principal e talvez mais perigoso significado do alimento para o homem, é ver na comida a solução para os conflitos, para o demasiado sofrimento, e buscar na alimentação o meio de se proteger das exigências do mundo.

Para entrar em contato com a Nutriemotion envie um e-mail ou pelo nosso Facebook.

Responda ao questionário, desse link, para fazermos uma avaliação do seu perfil.

 

 

 

 

Sobre o Autor

Marcia Bernardes

Marcia Bernardes

Psicóloga (CRP 05/17714) pós-graduada em Psicologia Hospitalar pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Sócia fundadora da NutriEmotion. Vinte anos de experiência clínica. Atuação na área do emagrecimento.

Deixe um comentário